Thursday, 8 May 2014

Vergonha Mortífera

Réné , Gabriele e Christen são nomes de três crianças que brincaram muito, mas estudaram mais e tiveram carreiras de sucesso. Um tinha o seu próprio fundo de investimento, os outros dois ocuparam cargos de direcção na ENI, no HSBC. 

Depois suicidaram-se. 

Todos perderam dinheiro dos seus clientes durante a recente crise financeira. Tiveram vergonha e suicidaram-se. Por comparação, em Portugal, há pessoas julgadas e condenadas por corrupção que são nomeadas para cargos públicos. Há outras com falhas de memória que envergonhariam o ex-presidente dos EUA, George W. Bush. Daqueles que acham que é natural guardar as pequenas sobras das campanhas eleitorais na sua conta pessoal, é melhor nem falar. Nos Estados Unidos acontece o mesmo. Um artigo recente na revista Slate, afirma que os gestores americanos têm uma “incapacidade relativa para a vergonha.” 

Será que os líderes portugueses têm os mesmos defeitos que os americanos apesar partilharem poucas das suas qualidades? Talvez, mas isso não explica a falta de pudor que quem dirige as empresas de ambos os países parece ter. A vergonha não é algo que cada um de nós traz dentro de si, é um sentimento que nos é imposto pelos que nos rodeiam. Uma pessoa vestida de t-shirt e calças de ganga não têm vergonha de andar na rua, mas teria vergonha de ir assim vestida a um jantar de gala ou a uma praia de nudistas. 


Isto significa que ensinar ética aos gestores pode contribuir para diminuir os crimes de colarinho branco e os pequenos acessos de tirania que são hoje cada vez mais frequentes por causa da mal-amada crise. Mas não vai resolver o problema. É difícil resistir à tentação quando há 3000 munícipes dispostos a encher mais de 50 autocarros para ir a um santuário apoiar presidentes de camâra sobre quem pairam graves suspeitas de corrupção, por melhor que seja o professor de ética lá da Faculdade. 

O que é preciso é uma comunidade empresarial, política e civil que tenha vergonha de, e imponha vergonha em todos aqueles que traiam a confiança de quem lideram e quem servem a partir da confortável (mas pouco rentável) cadeira do poder. A boa notícia é que não há nada estruturante que impeça esta mudança. A cultura americana e a portuguesa estão em posições diametricamente opostas em todos os indicadores. 

A necessidade de autoritarismo que é muitas vezes imposta à identidade do nosso país já foi refutada muitas vezes ao longo da história e tem sido demonstrada com especial frequência nos últimos meses naquela que ainda é a Avenida da Liberdade. A má notícia é que, como todas as mudanças sociais de fundo, a transformação de aplausos silenciosos às malandrices dos gestores em apupos bem audíveis a este tipo de comportamentos não pode ser ditada por decreto-lei, tem que começar nas empresas e só pode ser dinamizada por quem as chefia. 

A economia e o País precisam de líderes que tenham vontade e sejam capazes de tornar até as pequenas fraudes do dia-a-dia numa fonte de vergonha sabendo que se fizerem bem o seu trabalho, serão alvo do mesmo nível de exigência que os seus colaboradores impõem uns sobre os outros. 

O desafio é formar e recrutar pessoas que estejam dispostas a levar esta mudança a bom termo, sabendo que o comportamento ético raramente é bom para a sua conta bancária, para a sua carreira e até para a demonstração de resultados da sua empresa e a cotação das suas acções na bolsa. Superá-lo é substituir uma vergonha mortífera por um orgulho inspirador.

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