Há várias teorias da conspiração que denunciam os poderes ocultos que controlam os governos e as empresas. Os Illuminati e os ‘Skulls and Bones’ são dois dos exemplos que podem ser encontrados na internet. Em Portugal só conheço o Grupo do Bacalhau — sete gestores de segunda linha que almoçam bacalhau num restaurante de Lisboa todas as quintas-feiras e que, alegadamente, decidem entre si os destinos das principais empresas do País.
No entanto, há quarenta anos atrás uma investigadora desmascarou o grupo que de facto controla os destinos de governos e das empresas: as secretárias.
Rosabeth Moss Kanter, professora da Harvard Business School, fez um estudo no fim dos anos 60 sobre o papel das mulheres nas empresas. Descobriu que as secretárias têm um grande poder sobre as carreiras dos líderes que assessoram e sobre a própria estratégia da organização. Esse poder vem das suas duas tarefas principais: filtrar a correspondência dos gestores e gerir a sua agenda. Estas funções colocam-nas numa situação privilegiada para controlar a informação que os líderes recebem. Chamam a atenção para algumas mensagens e memorandos em detrimento de outros, facilitam encontros com algumas pessoas e dificultam-nos com outras, e muitas vezes escolhem as reuniões e eventos em que o seu chefe participa. Isso torna-as interlocutoras privilegiadas em qualquer processo de persuasão. As secretárias são o primeiro alvo das atenções dos vendedores que querem conquistar um novo cliente e dos esforços dos aspirantes a aprendizes de gestores que procuram um mentor a quem atrelar a sua carreira.
O seu apoio é difícil de obter – a palavra ou a gravata errada é o suficiente para que um vendedor não atinja o seu objectivo e para que a carreira de um futuro líder tenha um fim prematuro.
O poder que exercem sobre as empresas não é concertado, como o que descrevem muitas das teorias da conspiração mais populares. É um poder solitário que subjuga os interesses dos governos e das organizações a pequenas conveniências e caprichos, simpatias e antipatias de quem decide muitos dos pequenos detalhes do dia-a-dia dos líderes – detalhes que acabam por ter muita importância no futuro das organizações a que estes presidem.
O que fazer então?
A primeira tentação perante tanto poder é limitá-lo. Alguns gestores tomaram medidas drásticas neste sentido: muitos tentaram viver sem secretária, outros como Robert Mugabe e o ex-Ministro Britânico dos Negócios Estrangeiros, Bill Cook, até casaram com as deles. O nosso Primeiro Ministro deu um melhor exemplo - diz o PSD que José Sócrates contratou 17 secretárias pessoais no início do seu mandato, apesar do Ministro dos Assuntos Parlamentares ter protestado que eram apenas três. É assim que se tira verdadeiro partido do poder informal destas pessoas.
Para mim o poder das secretárias é mais interessante enquanto síntoma do que que enquanto recurso, porque mostra que a estratégia não é algo que os gestores fazem sózinhos. Só os líderes mais ingénuos é que acreditam ter algum controlo sobre a implementação da estratégia, mas até os mais cínicos acham que o processo de planeamento estratégico é seu, todo seu e só seu até ao fim.
Estão enganados.
Até podem fechar-se nos gabinetes para não ouvir ninguém e poderem aplicar o seu génio em análises SWOT e cadeias de valor, mas quem lhes traz (e escolhe) a informação que usam para o fazer é a Dona Graciete que, por isso, não é apenas a Secretária da Administração, mas também uma estratega em part-time.
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