“O Partido não pretendia o poder para benefício próprio, mas sim para o bem da maioria. Ambicionava o poder porque a grande massa dos homens se compunha de criaturas fracas e covardes, incapazes de suportar a liberdade e de encarar a verdade, sendo imperioso aos seres mais fortes governá-las e sistematicamente enganá-las. Que a humanidade tinha de escolher entre a liberdade e a felicidade e que, para o grosso dela, a felicidade se apresentava como preferível.”
George Orwell, 1984
A felicidade é o grande mito dos nossos dias. A felicidade é um mito porque não precisa de justificação e porque justifica tudo.
A felicidade não precisa de justificação e justifica tudo porque é um fim em si próprio. Aliás, a felicidade não é O fim. O objectivo da vida. A razão da existência de cada um de nós. Por exemplo:
— O que é que queres ser quando fores grande, Tóninho?
— Não sei, ou banqueiro ou assassino em série.
— Que bom filhinho, o que interessa é que sejas feliz.
Ou então:
— O marido da Teresa detesta os outros seres humanos. Já não vejo a Teresa há 7 anos apesar dela ser a minha única filha?
— Deixa lá, pelo menos ela é feliz com ele.
Ironias à parte, você já contou o número de vezes que ouviu as expressões “desde que sejas feliz assim” e “pelo menos eles são felizes assim” para justificar o injustificável? Eu só esta semana contei 47 vezes.
Eu, quando era criança, li muitas histórias sobre pessoas que viviam vidas difíceis, que passavam por sofrimento e provações para ter uma vida com significado. Muitas dessas pessoas não conseguiram, mas algumas conseguiram. Só que só conseguiram depois de morrer e por isso nunca souberam que tinham conseguido.
Nunca foram felizes.
Já estou a ouvir os pregadores da felicidade a dizer, “ai eram eram, eram felizes por ser infelizes.” Pois, pois. Façam uma pausa na lufa-lufa que é estampar sorrisos na cara das pessoas para ler as notas biográficas do Howard Phiplip Lovecraft. Pois é.
As histórias das pessoas que sofreram mas que conseguiram ter uma vida com significado marcaram-me muito e por isso a felicidade ficou sempre para depois na minha pequena, mas tenaz luta de ter uma vida com significado.
Há pessoas que são seres humanos mais competentes do que eu e do que o Lovecraft e que conseguem ter vidas chieas de significado e cheias de felicidade. Pelo menos é isso que os entusiastas da alegria e do optimismo apregoam.
Tem que ser uma dessas pessoas a discutir os efeitos do mito da felicidade na sociedade. Mas eu já passei tempo suficiente a estudar empresas para conseguir discutir os efeitos do mito da felicidade quando as pessoas estão a trabalhar.
À primeira vista, parece não haver muito espaço para a felicidade nas empresas. Mas há um número cada vez maior de pessoas de ‘smileys’ (uma bola amarela com um sorriso desenhado que simboliza a felicidade) ao peito a invadir as empresas.
A felicidade nas empresas não é apenas uma extensão da felicidade na sociedade. Em várias das empresas em que fiz investigação, onde dei formação, e onde fiz consultoria, as pessoas tinham que deixar a felicidade à porta da empresa, no mesmo sítio onde deixavam os seus sentimentos e até a democracia. Nessas e noutras empresas, a felicidade é regimentada. É a empresa que decide quanta felicidade é que as pessoas podem demonstar e até que tipo de felicidade é que as pessoas devem procurar e o tipo de felicidade que as pessoas podem obter.
Muitas das empresas com que trabalhei eram sitíos tristes. Algumas eram piores que tristes, eram violentas.Eram sítios onde as pessoas sofriam por causa do que os chefes faziam e por causa do que os chefes diziam. Eram sítios onde as pessoas recebiam muito feedback negativo, que é uma maneira bonita de dizer que eram sitios onde as pessoas eram reprimidas, repreendidas e envergonhadas.
Ao fim do dia, algumas pessoas conseguiam voltar a por às costas o carregamento de felicidade que deixavam à porta da empresa quando lá entravam pela manhã. Mas outras pessoas, deixavam um bocadinho de felicidade à porta da empresa todos os dias porque não conseguiam largar toda a tristeza que tinham carregado durante o dia. É que a tristeza não é a ausência da felicidade. A tristeza é uma coisa. A tristeza também pesa. E pega. Não é fácil de tirar.
Será que a falta de felicidade nas empresas é má? Há histórias muito bonitas de solidariedade, de amizade e até de pequenos actos de heroismo por causa da infelicidade que as pessoas sentem no trabalho. Você leu o meu artigo numa edição anterior desta revista em que eu contei a história do fórum online de uma empresa? Era uma história de um fórum online de uma empresa que foi usado para resistir à mudança e para ajudar as pessoas que estavam a ser vítimas da mudança. Eu nunca consegui apresentar esse caso em público sem que me viessem lágrimas aos olhos por causa da coragem e da humanidade que os trabalhadores da empresa demonstraram.
Mas os apóstolos do ‘smiley’ não querem saber.
A felicidade está na moda. E a moda da felicidade está a contagiar as empresas. Claro que se você ler muito do que se escreve sobre felicidade no trabalho, não vai encontrar grande coisa sobre felicidade. Os exemplos de felicidade no trabalho num artigo do Wall Street Journal em Setembro de 2011 incluem o trabalho em equipa, a variedade de tarefas que as pessoas fazem, a identificação das pessoas com a cultura da empresa, a motivação intrínseca e a auto-confiança. O artigo diz que cada uma destas coisas deixa as pessoas contentes no trabalho. Mas isto é o contrário do que os profetas da felicidade andam por aí a apregoar. Cada um destes factores devia ser uma consequência da felicidade e não uma causa. Muito confuso…
Mesmo assim é inegável que há intervenções para aumentar a felicidade nalgumas empresas que são mesmo sobre felicidade. A Google, a GE Capital, A Ernst &Young e a Coca-Cola fazem parte de uma lista das dez empresas que mais fizeram para aumentar a felicidade dos colaboradores. Estas empresas apostam na felicidade para reter colaboradores cujo talento lhes permite sair de qualquer empresa onde não sejam felizes. Estas empresas também apostam na felicidade porque a felicidade parece melhorar a produtividade e a criatividade dos colaboradores.
A moda da felicidade nas empresas até chegou à China. Em 2012 a ChemChina, o grupo que agrega todas as empresas do sector químico detidas pelo estado Chinês, emitiu um comunicado em que definia o índice de felicidade dos trabalhadores como um dos indicadores mais importantes para a gestão da empresa.
Porque é que as empresas estão tão entusiasmadas com a felicidade? O Governo do Turkmenistão, que adoptou a felicidade como objectivo para o país, pode dar uma pista.
Em fevereiro de 2012, Gurbanguly Berdymukhammedov foi ‘eleito’ (com 97% dos votos) presidente do Turkmenistão, um país que faz fronteira com o Afganistão e com o Iraque. Após ganhar as ‘eleições’, Berdymukhammedov anunciou que o Turkmenistão ia entrar numa “era de felicidade suprema.” E isto não é só conversa.
Berdymukhammedov organizou uma Semana da Saúde e da Felicidade no dia 2 de Abril. As pessoas puderam assistir a duas peças de teatro, “A era da inspiração pela felicidade” e “a era do poder iluminado pela felicidade.” A conclusão do relatório da Semana da Saúde e da Felicidade parece retirada de um livro sobre optimismo e felicidade nas empresas. Escreve Victor Zaitsev, editor-chefe do jornal do regime no Turkmenistão:
Mantem-se no país uma atmosfera de entusiamo e emoção, crença e optimismo. Esta atmosfera será a nossa guia durante a nova época que vivemos, trabalhamos e criamos a felicidade do nosso país.
No Turkmenistão, a felicidade é um mecanismo de repressão. Nas empresas também pode ser.
A felicidade é um mecanismo de repressão porque pessoas são obrigadas a ser saudáveis e felizes. Todos os habitantes do Turkmenistão foram obrigados a participar na Semana da Saúde e Felicidade. Todos tinham que fazer ginástica todos os dias e todos tinham que estar presentes nas cerimónias onde se festejava a alegria e a esperança. Os funcionários públicos tinham mais uma actividade. Tinham que subir as Escadas da Sáude: umas escadas com 8 kilómetros de comprimento construídas na parede de uma montanha.
Tudo para dar as boas vindas à “era do poder iluminado pela felicidade.”
Isto não é muito diferente do que pode acontecer nas empresas. A Zappos têm uma cultura que exige que as pessoas sejam “um bocadinho esquisitas,” em que as pessoas tem que ser amigas umas das outras fora do trabalho, e em que as pessoas tem que manter um clima constante de harmonia. Na Yahoo, os empregados devem pregar partidas uns aos outros. Na Southwest, que é uma das poucas linhas aéreas que conseguiram melhorar os resultados desde 2002, os empregados não só devem pregar partidas uns aos outros como também têm que festejar o dia dos namorados na empresa e têm que se disfarçar no trabalho para o dia das bruxas.
Algumas pessoas podem adorar este tipo de cultura da empresa. Mas para outras pessoas isto é tão bom como subir as Escadas da Saúde. Mas não têm escolha. Ou sorriem, saltam e brincam ou vão para a rua.
A felicidade também é um mecanismo de repressão porque permite a quem lidera empresas e a quem lidera países representar a resistência como um comportamento negativo, exortando as pessoas a demonstrar o seu optimismo abanando a cabeça em sinal de apoio a tudo o que os líderes fazem e dizem.
Para mim, a opressão é um preço demasiado caro para pagar pela felicidade. Especialmente porque a felicidade nas empresas se pode tornar numa coisa muito, muito feia.
A Mary Kay Cosmetics, que é uma das maiores empresas de venda directa, é o melhor exemplo do mal que o ênfase nas emoções positivas como o orgulho e a pertença podem causar às pessoas. A Mary Kay foi uma empresa pioneira na utilização do orgulho como ferramenta de motivação. Em 1969 começou a oferecer às 5 melhores vendedoras um Cadillac côr-de-rosa para que o seu sucesso pudesse ser reconhecido não só dentro da empresa como também na comunidade onde cada vendedora vivia. Um caso sobre a Mary Kay Cosmetics publicado pela universidade de Harvard cita uma directora de vendas que diz que:
Há cinco coisas que todas as nossas vendoras querem. Chamamos-lhes STORM: Satisfação com um trabalho bem feito (valorização pessoal); Trabalho em equipa (um sentimento de pertença); Oportunidade (para ter sucesso); Reconhecimento; e Muito dinheiro.
Cada um dos pontos do STORM (à excepção, talvez, de ‘muito dinheiro’) poderiam ter sido retirados de um livro sobre psicologia positiva e felicidade no trabalho. A própria Mary Kay, que fundou a empresa parece ser a pessoa com que sonham todas as pessoas que apregoam o poder da felicidade nas empresas. A Mary Kay acreditava que os elogios e o reforço positivo leva ao sucesso. A Mary Kay explicou que:
Uma fitinha de 5 dólares [a dizer ‘vendedora do ano’] e 20 dólares de prémio valem mais do que um cheque de 25 dólares. Por outras palavras, se lhes vai dar um cheque, dê-lhes um cheque num palco. Isso é que é motivador. Algumas destas mulheres [que são vendedoras da Mary Kay] não precisam do dinheiro dos prémios, mas o reconhecimento [quando se é aplaudido num palco] é viciante.
Os valores da Mary Kay são semelhantes aos valores da Zappos e das outras empresas que são usadas como exemplo do impacto da felicidade no trabalho. O site da Mary Kay diz que a empresa têm quatro valores principais: espírito de entreajuda (um valor tão importante, que é uma marca registada da empresa), tratar as outras pessoas como se quer ser tratada, fazer as pessoas sentir-se importantes; e equilibrar tempo no trabalho com tempo com a família. A sua filosofia de gestão de pessoas e os seus valores tornaram a Mary Kay Cosmetics numa empresa tão bem sucedida como todas as outras que servem de exemplo ao efeito que a felicidade pode ter nos resultados. Em 2012, a empresa empregava 2.4 milhões de vendedoras e vendia 3 biliões de dólares.
A Mary Kay Cosmetics afirma que o seu propósito central é trazer oportunidades ilimitadas às mulheres. Os testemunhos das suas vendedoras parece mostrar que é mesmo isso que a empresa consegue fazer. Uma gestora intermédia independente na Mary Kay, diz que adora a sua carreira porque têm liberdade para trabalhar de casa, porque ganha muito dinheiro, porque têm um Cadillac às custas da empresa, e porque:
ADORO as mulheres com quem trabalho. Adoro (…) ver cada uma destas mulheres crescer (…); são mulheres com uma determinação incrível e com uma fé enorme! E adoro as minhas colegas... são a minhas melhores amigas nesta viagem incrível.
É uma história tão côr-de-rosa como as histórias preferidas das pessoas que defendem o poder que a felicidade têm nas empresas.
Mas outras vendedoras mostram que as empresas que parecem fofinhas e bonitas de frente, podem ter umas traseiras bem feias e desagradáveis. Uma vendedora chamada Maria explicou que:
A culpa e a vergonha são duas das ferramentas de manipulação das empresas de vendas multinível, e em especial da Mary Kay. É uma das razões que faz com que tantas mulheres fiquem na empresa e tenham dificuldade em sair.
O início da sua experiência na Mary Kay foi parecido com a de muitas outras vendedoras que dizem maravilhas da sua experiência na empresa:
No princípio da minha carreira na Mary Kay, eu queria divertir-me e usar os produtos. Era a terceira vez que trabalhava numa empresa de vendas multinível, mas achava que a Mary Kay era diferente.
Mas passado pouco tempo, a Maria descobriu que a empresa não era tão fôfinha como as almofadinhas de pó-de-arroz que vendia:
Tudo começou quando comecei a participar nas reuniões semanais como vendedora. Foi aí que aprendi sobre o reconhecimento. As pessoas que não traziam potenciais candidatas para recrutar, que não recrutavam ninguém, ou que não encomendavam o suficiente para chegar ao nível de ‘estrela’ eram ignoradas e não recebiam nenhum reconhecimento. Foi então que decidi que ia provar que não era nenhuma incapaz.
A Maria conseguiu provar a si própria que era capaz. Que conseguia. E conseguiu mesmo vender. Vender muito. Ganhou muitos prémios, o Cadillac, cheques, e fitinhas a dizer que era a maior. Mas também ganhou outra coisa. Ganhou cada vez mais pressão. A Maria conta que:
À medida que fui subindo na escada do sucesso, ia sendo sujeita a cada vez mais pressão em cada reunião em que participava. Os objectivos eram cada vez mais difíceis e diziam-se coisas como, “Deus quer que sejas fantástica” e “Deus não te dava um sonho que Ele não achasse que conseguias alcançar.” Isto mexeu comigo porque sou cristã. Eu não queria que Deus ficasse desiludido comigo.
A história da Maria tem um final difícil, mas que também é um final feliz:
Quando comecei a ter dificuldades em atingir os meus objectivos como directora de vendas, disse para mim mesma, ‘O que é que há de errado comigo? Devo ser uma má líder. Não vejo mais ninguém a ter as dificuldades que eu tenho, por isso a culpa deve ser minha.’ Até comecei a questionar a minha vida religiosa porque Deus não me estava a abençoar como eu via que Deus estava a abençoar as outras pessoas. Vêem como a culpa pode ser destrutiva? Comecei a perder confiança nas minhas capacidades como líder e por isso trabalhei ainda mais para provar que era bem sucedida. Só mais tarde é que percebi que era um sistema fracassado — e não eu — que me impedia de realizar os meus sonhos.
A história da Maria é a história de uma pessoa que sofreu e que venceu as dificuldades que as ferramentas da psicologia positiva podem criar às pessoas. A história da Maria é a história do quão feia pode ser a outra cara do optimismo, da felicidade, da positivismo e do orgulho.
Para as pessoas que lideram a Mary Kay Cosmetics, o problema não é do optimismo e da felicidade. É da Maria que é uma pessoa negativa.
Mentira.
A utilização do optimismo e da felicidade nas empresas tem o mesmo problema que qualquer outra ferramenta de liderança: tem efeitos negativos apesar das melhores intenções dos lideres da empresa. O pior é que a utilização do optimismo e da felicidade tem um custo maior do que as outras ferramentas de liderança: o optimismo e a felicidade são instrumentos repressivos porque ninguém pode ser contra a felicidade e o optimismo. É que a felicidade é o mito dos nossos dias: justifica tudo e não precisa de justificação.
O optimismo e a felicidade estão a cumprir o sonho dos tiranos e dos opressores: deixar as pessoas de braços cruzados e de boca calada porque não conseguem tirar o sorriso que têm na cara.
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