Escrevi alguns textos que acabaram por não ser incluídos no livro 'Terror ao Pequeno Almoço.' Aqui vai um deles:
Hoje quero provocar os leitores com o seguinte argumento: os sistemas de informação (SIs) não são uma janela, são uma montra. Esta provocação não é um exercício de imaginação académica, é o resultado de 15 meses de investigação numa multinacional que é apresentada como um exemplo de sucesso na implementação de SIs estratégicos.
Os SIs são normalmente vistos como uma janela que permite aos gestores ver tudo o que se passa na sua empresa. Esta é uma visão limitada. Os SIs são mais vezes utilizados como montras para criar uma ilusão de sucesso para os gestores de topo.
Os fabricantes de SIs, as consultoras e os gurus falam sobre o impacto dos SIs nas empresas como uma janela. Esta janela electrónica dá aos gestores acesso detalhado ao que acontece na empresa. Os SIs beneficiam a organização porque fornecem mais e melhor informação para a sua estratégia. Os SIs dão a conhecer o que se passa na organização com muito detalhe, o que é importante para os gestores para criarem melhores estratégias e seguir sua implementação ao detalhe. Esta informação é muito fiável porque a recolha de dados é automática ou pelo menos fortemente validada. Os SIs também beneficiam os gestores porque tornam o sucesso mais visível. Isto ajuda os gestores intermédios a detectar, premiar e promover os colaboradores mais competentes e ajuda os gestores de topo a detectar e promover os melhores gestores intermédios.
Esta visão dos SIs como uma janela é apelativa, mas não é consistente com a realidade.
A investigação mostra que os gestores utilizam os SIs não como uma janela, mas sim como uma montra.
Os gestores não estão sentados em escritórios a analisar dados detalhados produzidos pelos SIs tentando articular a melhor estratégia para aumentarem o desempenho dos seus colaboradores e assim poderem ascender na organização pelo seu mérito enquanto líderes.
Mais de meio século de investigação prova que o trabalho dos gestores se faz em interacção com os seus colaboradores e que as suas estratégias são concebidas em tempo real, no terreno. A informação fornecida pelos sistemas de informação é apenas uma pequena parte do conhecimento que os gestores necessitam para fazer o seu trabalho. Além disso, uma parte importante do trabalho dos gestores consiste em participar nas guerrilhas políticas em que assentam as suas carreiras e a resiliência da sua organização.
Por estas duas razões, é mais importantes para os gestores utilizar os SIs para mostrar sucesso à gestão de topo do que para observar em detalhe o trabalho dos seus colaboradores.
Aqui há duas características da utilização dos SIs pela gestão de topo que são uma ajuda preciosa.
A primeira é que os dados fornecidos pelos SIs são tratados como objectivos e independentes das pessoas, quando de facto estes dados são muitas vezes introduzidos pelas pessoas que afectam directamente. Os vendedores introduzem muita da informação sobre as vendas que a empresa realiza e esta informação é muitas vezes utilizada para pagar o seu bónus!
A segunda é que os gestores de topo preferem ter acesso à informação dos SIs – em apresentações ‘PowerPoint’ preparadas pelos gestores intermédios. Esta prática permite aos gestores intermédios escolher apenas a informação que lhes é vantajosa e mostrá-la da forma mais favorável possível às suas ambições políticas.
A visão dos SIs como uma fonte de informação neutra e objectiva leva a que a gestão de topo não tenha qualquer motivo para escrutinizar em detalhe os dados apresentados.
Os SIs são por isso, uma poderosa ferramenta preciosa para manter uma montra que cria uma ilusão de sucesso para os gestores de topo.
Tratar os SIs como uma janela que fornece informação para tomar decisões estratégicas é um erro perigoso.
Como resolver este problema? É fácil. Tratar os SIs como uma ferramenta de trabalho para os colaboradores e não como uma ferramenta de controlo para os gestores.
-Joao Vieira da Cunha
No comments:
Post a Comment
Note: only a member of this blog may post a comment.