Monday, 12 May 2014

Criatividade


Se há uma característica comum a todos os seres humanos é uma elevada dose de criatividade.

 A diferença entre o Pedro, que trabalhava na unidade de vendas em que fiz a investigação para o meu doutoramento, e o Pablo Picasso não é na quantidade de criatividade que possuiam, mas sim na forma como a aplicaram. 

O Pablo Picasso fez arte pintando e esculpindo. 

O Pedro fazia arte manipulando o seu bónus. 

Um dia, acompanhei o Pedro numa viagem 4 horas até  um armazém onde a empresa de telecomunicações em que ele trabalhava guardava as cópias das facturas telefónicas dos seus maiores clientes. Passamos a tarde de máquina de calcular na mão a somar os gastos telefónicos dos últimos seis meses feitos por uma empresa que fazia parte dos clientes pelos quais o Pedro era responsável. O total foi 72 mil euros. 

No dia seguinte, o Pedro abriu o sistema de informação onde registava as vendas e introduziu uma venda de serviços de telecomunicações de 72 mil euros (que correspondia a um quarto do seu objectivo anual). O sistema de informação verificou que tinha sido feito um pagamento nesse valor. Tinha mesmo, o cliente pagava todas as suas facturas telefónicas com regularidade. O sistema de informação foi depois verificar se alguém já tinha registado essa venda. Ninguém o tinha feito: os outros vendedores da equipa do Pedro vendiam serviços telefónicos, mas não tentavam convencer os clientes a telefonar mais. O sistema de informação fez uma última verificação: assegurou-se que o Pedro não tinha acedido às bases de dados que registam os serviços cobrados aos clientes. O Pedro não sabia, mas suspeitava deste último passo e por isso é que tinha ido ao armazém somar as facturas à mão em vez de ir buscar esse valor a uma base de dados comodamente sentado na sua secretária. 

Brilhante! Pablo Picasso não teria feito melhor. 

A primeira reacção é tentar evitar este tipo de abuso. No entanto, é mais proveitoso canalizar esta criatividade para fins construtivos do que se lutar contra ela. Há três formas de o fazer. 

A primeira é criar regras de trabalho em grupo que aproveitem a criatividade de toda a equipa. Esta solução permite que a criatividade de cada pessoa seja alimentada pela das outras mas desaproveita a criatividade de quem, por uma razão ou por outra, não faz parte do grupo. A segunda consiste em aumentar a probabilidade de interacções espontâneas entre os colaboradores através da criação de zonas comuns de trabalho e socialização - os quadros com giz colocados por cima dos urinóis nalgumas casas de banho do MIT são um bom exemplo. 

Isto aumenta o número de pessoas que podem contribuir para a solução de um problema, mas deixa a sua escolha ao acaso. A terceira consiste em colocar o problema a toda a empresa sob a forma de um concurso de ideias. Esta prática, chamada crowdsourcing, foi usada com sucesso no século XVIII para descobrir como calcular a longitude.  Assim aproveita-se o potencial criativo de toda a organização, mesmo o daqueles cujo contributo é mais improvável. Afinal foi um carpinteiro que resolveu o problema da longitude depois de grandes cientistas da época como Isaac Newton terem desistido de o fazer. Nenhum destes processos é fácil de implementar, mas nenhuma empresa se pode dar ao luxo de deixar a criatividade dos seus colaboradores à deriva. Se o fizer é mais provável que esta embata nos objectivos da empresa causando sérios danos do que fique a boiar sossegadamente sem sair do sítio indiferente à suave ondulação da rotina.

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